As teorias que fundamentam a Medicina Tradicional Chinesa

Cláudio Manoel Souza da Silva

 

Falar sobre esta técnica-arte de mais de 3 mil anos não é uma tarefa fácil e traduzir palavras chinesas pode nos levar a erros de interpretação, por isso cabe tentar aqui ser o mais sucinto possível.

Esta arte de prevenir e curar determinados padrões de desarmonia (doenças) se baseia em algumas teorias que são:

Yin Yang – teoria dos opostos e complementares. Todas as coisas existentes no universo podem ser Yin ou Yang, isto depende de suas características e com quê a ser comparado. Vamos lá:

Yin é tudo aquilo que possui características de quietude, letargia, morosidade, frieza, umidade, sangue, feminino (aquele que acolhe). Exemplo de uma desarmonia Yin é a depressão, com suas características de introspecção, quietude, frio, morosidade e tristeza.

Yang é energia, movimento, sutileza, claro, calor, sol, agitação, secura, masculino (aquele que impulsiona). Exemplo de uma desarmonia Yang é a ansiedade, por suas características de agitação, insônia, inquietação, calor e euforia.

Yin alimenta o Yang e o Yang impulsiona o Yin. O alimento é Yin (base material) em relação ao peristaltismo/digestão Yang (função), é o que chamamos de consumo suporte.

O dia é Yang – sol, luz, calor, a noite é Yin – lua, escuro, frio. Após a atividade (movimento), vem o descanso (quietude), é o que chamamos de oposição e interdependência.

E, por último, tomemos como exemplo uma gripe; em seu estágio inicial temos: calafrio, coriza, aversão ao frio, letargia, cansaço (sintomas Yin). Se não tratada, se agravará com aparecimento de: garganta inflamada, catarro purulento, febre, calor (sintomas Yang), ou seja, conforme o NeiJing (cânon da medicina chinesa), quando um certo limite é alcançado, a mudança de sentido é inevitável. É o que chamamos de intertransformação. Para tratarmos estes desequilíbrios temos que harmonizar, equilibrar Yin e Yang.

Outra teoria de base da medicina chinesa é a teoria das cinco fases, que são representadas pelos elementos: madeira, fogo, terra, metal e água, que respectivamente correspondem aos órgãos: fígado, coração, baço/pâncreas, pulmão e rins. Entre estes elementos tem que haver certas regras, e uma delas é o controle ou restrição, em que um órgão restringe outro. Um clássico exemplo é o dos rins restringindo, controlando o coração, por isso é indicado diurético (rins) para os hipertensos (coração).

Outra teoria é a das cinco substâncias, que são:

  • Qi – energia
  • Xue – sangue
  • Shen – mente, consciência, ou espírito
  • Jing – essência
  • Jin-Ye – líquidos corpóreos

Em que o desequilíbrio (falta, excesso ou estagnação) em uma ou mais substâncias é um fator predisponente aos padrões de desarmonia.

Temos também a teoria dos órgãos (Zang) e vísceras (Fu), que além do conceito fisiológico é, acima de tudo, energético, onde algumas funções e relações diferem da medicina ocidental. Assim temos: o coração é a morada da substância Shen(mente, consciência ou espírito), que possui dois padrões de desarmonia.

O primeiro é a perturbação do Shen, onde o indivíduo pode apresentar sintomas Yang – agitação, falta de concatenação das idéias, falar rápido demais, tropeçar nas palavras, insônia ou, em casos extremos, demência. E o segundo é a deficiência do Shen, onde os sintomas são Yin: introspecção, olhar lânguido, tristeza, depressão, morosidade, etc.

O coração é diretamente relacionado com o Shen e o Shen diretamente relacionado com o coração.

Fígado – harmoniza as emoções, a digestão e a menstruação, além de influenciar nas unhas, olhos e tendões. -Atenção mulheres- durante o período menstrual não sobrecarreguem o fígado com gordura animal e bebidas alcoólicas, com certeza terão as emoções mais afloradas e cólica menstrual. Rins – este órgão é a morada da substância Jing (essência), responsável pelos ciclos vitais: nascimento, crescimento, reprodução e declínio; e de certo modo comparado à herança genética. Os rins são responsáveis pela nutrição dos ossos, dentes, cabelos e uma boa audição. Baço – este é o responsável pelo transporte e transformação dos alimentos, nutrição dos músculos e sustentação dos órgãos. Pulmão – Governa a respiração, pois é o único órgão que tem contato com a parte externa do organismo, através das narinas. Algumas disfunções deste órgão se manifestam na pele, como dermatites e alergias.

Não podemos deixar de citar os sabores e as emoções diretamente relacionadas com estes órgãos.

Fígado Coração Baço Pulmão Rins
raiva euforia preocupação tristeza medo
azedo amargo doce picante salgado

Cabe salientar que cada sabor, usado com moderação, fortalece o órgão correspondente, e o excesso o enfraquece. Cada emoção vivida em excesso afeta o órgão correspondente, e quando um órgão for afetado, a emoção aflorará.

E a última teoria é a dos Meridianos e suas ramificações (Jing-Luo), estes são vias por onde circula a energia vital (Qi) e onde estão localizados os principais pontos acupunturais.

Os meridianos fazem a ligação entre a superfície do nosso corpo e os órgãos e vísceras, justificando, assim, a puncturação de finas agulhas na superfície do corpo, fazendo com que a energia (Qi) circule livremente mantendo a vitalidade dos órgãos/vísceras.

A Medicina Tradicional Chinesa faz uma leitura diferenciada do ser humano. Poeticamente falando, somos uma réplica da natureza, com seus diversos ciclos e movimentos de transformação, dentro de um sistema interligado. Mas os próprios fatores climáticos da natureza -vento, calor, umidade, secura e frio-, quando em excesso, podem nos ser prejudiciais, sendo chamados de energia perversa (Xie Qi). A partir disto fazemos uma avaliação energética, holística e humanista do ser, sempre com o objetivo de equilibrar o organismo para evitarmos a penetração dos fatores patogênicos exógenos, e assegurar um harmonioso funcionamento do corpo como um todo.

 

 

Por: Cláudio Manoel Souza da Silva

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